Luísa Vitória é caso raro entre bebês prematuros brasileiros

05/12/2012

Nascida no dia 21 de julho deste ano com apenas 23 semanas de gestação e 600 gramas de peso, Luísa Vitória Alves Xavier é um caso raro entre os bebês prematuros brasileiros.

— O exame neurológico dela é perfeito. É muito raro um bebê de 23 semanas no Brasil sobreviver sem sequelas, mesmo em hospitais mais modernos que o nosso — afirmou a médica Isabel Marshall, chefe da UTI neonatal do Hospital Presidente Vargas, em Porto Alegre.

Depois de quatro meses e meio internada, Luísa recebeu alta ontem e foi recepcionada em casa, na capital gaúcha, com festa e emoção.

— Hoje é o dia mais feliz da minha vida. É como nascer de novo — disse a mãe, Cassiane Oliveira Alves, de 28 anos, no quarto decorado em rosa e roxo, enquanto embalava a filha, hoje com 2,2 quilos.

Cassiane deu a luz a gêmeas prematuras. Mas Lívia, a mais nova, morreu três dias depois do nascimento

Luísa sobreviveu e, por isso, ganhou Vitória como segundo nome no lugar do previsto Fernanda, que seria uma homenagem ao avô, Fernando, pai de Cassiane. Ele mesmo sugeriu a mudança, orgulhoso da luta que uniu a família nos últimos meses.

Luísa é uma exceção

A médica Isabel Marshall destaca o envolvimento da família e a dedicação da equipe como decisivos para o sucesso da recuperação.

— Temos recursos materiais limitados, mas nossos profissionais são muito qualificados. O atendimento humanizado dá confiança à família, que consegue participar mais do cuidado com o bebê prematuro — comenta Isabel.

Cassiane chegou ao hospital com um sangramento no dia 17 de julho. Resistiu por quatro dias, alertada pelos médicos sobre os riscos de um parto tão prematuro.

Durante o período em que Luísa esteve internada, Cassiane viu outras mães perderem seus filhos, bebês com malformações chegarem à UTI e enfrentou todo tipo de complicação ao lado da filha, tendo de aprender a conviver com termos médicos como queda de saturação e retinoplastia da prematuridade, até o dia em que ajudou a apertar os botões das incubadoras quando houve uma queda de luz no hospital.

Nas últimas duas semanas, com Luísa já fora da UTI, começou o processo de adaptação da menina para se alimentar sem a sonda gástrica e poder, finalmente, voltar para casa.

O pai, Sérgio Xavier, de 31 anos, não pôde se ausentar do trabalho em uma empreiteira de pintura durante a tarde, mas tratou de chamar toda a vizinhança para a festa de boas vindas à noite.

A recepção foi calorosa: mais de 20 pessoas se aglomeravam ao redor de Luísa, entre familiares e amigos.

Evolução da medicina permite vitórias como a de Luísa

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano, cerca de 15 milhões de bebês nascem prematuros (antes de 37 semanas) no mundo. O Brasil aparece na 10ª posição em números absolutos, com 279,3 mil partos de prematuros por ano, ou 9,2% dos partos. Graças ao desenvolvimento da medicina, nascidos prematuros têm hoje mais chances de sobrevida do que décadas atrás.

Respiradores mais modernos e delicados, que causam menos lesões ao pulmão do recém-nascido, e incubadoras mais sofisticadas, capazes de manter acústica, luminosidade e temperatura mais semelhantes ao ambiente da barriga da mãe, são alguns dos equipamentos citados pelos médicos.

Medicamentos também têm sido decisivos. O surfactante pulmonar é um exemplo. Aplicada diretamente na traqueia do prematuro, a substância ajuda o pulmão do bebê a se desenvolver e começou a ser utilizada no Brasil somente nos anos 1990. Outra medida, também para o desenvolvimento do sistema respiratório do bebê, é o uso de corticoide na mãe, antes do parto.

Para poder sair do hospital, a criança deve ter o peso e as condições correspondentes à idade corrigida, ou seja, contada a partir da 40ª semana, somados os períodos de gestação na barriga da mãe e na incubadora. E os cuidados não cessam depois da liberação.

— Sobreviver na UTI não significa sobreviver depois, é preciso investir também no acompanhamento hospitalar após a alta — frisa a neonatologista Rita de Cássia Silveira, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e chefe do ambulatório de prematuros do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

No Hospital Presidente Vargas, os nascidos prematuros recebem acompanhamento ambulatorial até os 10 anos de idade.

O que faz de Luísa uma vitoriosa

:::: Segundo a médica e professora da UFRGS Rita de Cássia Silveira, até 15 anos atrás, um nascimento com 24 semanas era considerado aborto pela Organização Mundial da Saúde.

:::: Atualmente, a OMS considera bebês prematuros aqueles que nascem no período gestacional entre 22 e 37 semanas. No entanto, entre 23 e 24 semanas se encontra o período de pré-viabilidade, conforme o obstetra José Geraldo Ramos, também professor da UFRGS.

:::: Segundo Ramos, a taxa de mortalidade entre nascidos com 23 semanas gira em torno de 80%. Com 29 semanas, a chance de sobrevida aumenta para 90%.

:::: O risco de sequelas em casos de prematuridade extrema é alto. São comuns problemas de visão, audição, locomoção e dificuldade de aprendizado.

:::: Um estudo publicado este ano no jornal médico Pediatrics, feito pelo pediatra e professor de neonatologia Jonathan Muraskas, do Centro Médico da Universidade de Loyola, nos Estados Unidos, aponta que a idade gestacional é mais determinante para a saúde futura de um bebê prematuro do que o peso no nascimento.

:::: Com 23 semanas, os sistemas do feto ainda não estão maduros. Intestinos e glândulas como pâncreas e tireoide ainda não se formaram. A pele ainda é gelatinosa e muito sensível. O sistema nervoso central só estará maduro com 28 semanas. E a capacidade pulmonar só estará estabelecida por volta da 35ª semana.


Fonte: ZERO HORA

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